Ah Eh Ih Oh Uh

9 de março, 2018 0 Por Alessandro

Ditadores da gramática em tempos de redes sociais

Todo mundo já deve ter visto alguma reação, por vezes exageradas, daqueles fervorosos críticos dos erros de português nas redes sociais e aplicativos de conversa. Não, não é aquele amigo seu que te corrige com a intenção de te ensinar, mas aquela pessoa que sente prazer em corrigir pela falsa sensação de superioridade intelectual. Aquele chato que não podem ver um erro que já se debruça com toda ira sobre seu teclado e sai disparando correções, geralmente precedido ou sucedido de alguma ofensa pessoal.

Mas até mesmo esse tipo de combatente gramatical precisa saber diferenciar o que é  de fato erro de português do que é simplesmente internetês.

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Imagem: Superinteressante

Como exemplo, eu tenho um “amigo de Facebook” que, no auge de sua revolta com os erros de português alheios, resolveu publicar uma postagem com diversas correções e até que de forma brilhante. Mas lá no meio das inúmeras corretivas (mas/mais – a gente/agente), eis que surge uma indignação especial ao uso do “eh“, argumentando que o correto seria “É“, assim, acentuado. Claro, em português não há o que se discutir: o correto é “é“.

Mas o “eh” é outra história

E essa história remonta o começo da internet, lá nos Estados Unidos, até sua chegada triunfal em terras brasileiras.

Saiba que o “eh” é um filho primordial e legítimo do internetês brasileiro. Como um X-Men, o “é” sofreu mutação para salvar a nossa comunicação quando a internet ainda engatinhava e era conhecida como Usenet, uma espécie de rede social acadêmica, também pode-se comparar com uma wikipedia primitiva.

A título de curiosidade, a internet como utilizamos hoje é conhecida como “web 2.0“.  Assim, em termos simples, se você fosse a atual Internet, então a Arpanet seria a bisavó, a Usenet seria a sua avó e a internet 1.0 sua mãe.

A ideia da Usenet surgiu em 1979, inspirada da Arpanet (de uso militar), sendo estabelecida nos Estados Unidos em 1980. Era uma rede muito simples, com severas limitações de velocidade, processamento, capacidade, etc. Os usuários, inicialmente todos do mundo acadêmico, publicavam e liam artigos, mensagens, divididos em categorias e etc. Os fóruns de discussão eram simples e havia uma limitação de caracteres, tal como o Twitter faz hoje, mas na época se tratava de extrema necessidade:

  • 1) Necessidade de espaço: Imagine você que em 1973, um HDD “winchester” da IBM, de 60MB custava US$ 87.600 e somente em 1980 a IBM lançou o 3380 Direct Access Storage, que tinha 2.52GB e custava US$ 142.200. Hoje o seu menor pendrive tem ao menos o dobro de espaço e custa menos de US$7.
    Em resumo, o espaço em disco era escasso e caro, assim, quanto menos caracteres eram digitados, melhor.
  • 2) Necessidade de velocidade/performance: Além de extremamente caros, em 1980 os discos eram muito lentos, entregavam apenas 3 megas de arquivos por cada segundo (mbps), os discos atuais SSD superam a barreira de 600MBPS (sim, dá pra jogar CS). Os computadores da época também não possuíam capacidade de processar tantos dados em pouco tempo. Outro complicador era a conexão do tipo discada que era extremamente lenta.
    Em resumo, cada caractere a mais significava mais tempo para que sua mensagem fosse transportada e processada até que chegasse, legível, à tela do destinatário. Ou seja, mais uma vez, quanto menos caracteres, melhor.

Daí os americanos começaram a fazer uso de “BRB”, “LOL”, “U” (you), “4” (for), “FYI”, “ASAP”, e várias outras abreviações pré existentes ou nascidas por força desta necessidade. Afinal, a frase “AS SOON AS POSSIBLE” possui 19 caracteres (espaços em branco também contam), ao usar ASAP, você economizaria, de uma tacada só, 15 caracteres!

 

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Veja abaixo como era a Usenet em 1986, antes da primeira conexão do Brasil.

DECWRL netmap-1.2 by Brian Reid at Wed Dec 31 11:05:23 1986

 


INTERNET BRASILIS

Oito anos depois, em setembro de 1988, essa “avó da internet” chegou às universidades do BR, causando uma verdadeira revolução por aqui. Essa revolução pode ser conferida no livro “Internet: O que é, o que oferece, como conectar-se” (GUIZZO, Érico. Editora Ática, 1999). Não vamos discursar sobre a história da internet no Brasil, mas apenas resgatar o valioso registro da velocidade com qual o Laboratório Nacional de Computação Científica (RJ) conseguiu conectar-se à Universidade de Maryland, anote: 9.600 bits por segundo. Como comparação, hoje seu smartphone está conectado à rede 4G a pelo menos 10 megabits por segundo, praticamente dez vezes mais rápido. Ou seja, tudo ainda era muito lento, muito caro e muito restrito.

Não nos restou outra alternativa a não ser entrar no ritmo das abreviações: COM (C) / VOCÊ (VC) / TUDO BEM (TDB) / BOM DIA (BDIA).

Também passamos a realizar substituições de letras (AQUELE = AKELE / AQUI = AKI) e até mesmo adotamos os termos já padronizados e amplamente utilizados nos Estados Unidos, o “BRB”, “FYI”, “ASAP” e vejam só, o “LOL”. É isso mesmo, o “LOL”, apesar da “recente” popularidade,  já tem uma certa idade.


Tah, mas e o “EH”?

Para nós brasileiros existia um outro fator além das limitações de espaço de armazenamento e velocidade: A ACENTUAÇÃO GRÁFICA! 

Sim, pois a tecnologia era toda americana, feita para os americanos e seu idioma, o inglês.

Assim, simplesmente não havia como acentuar nada e isso era um problema para nós, latinos. Imagine o uso de palavras como coco, avô/avó, e/é, esta/está. Você sabe, a acentuação pode mudar todo o sentido de uma palavra e, portanto, de uma frase inteira.

Bem, para muitas palavras, o contexto resolve. Exemplo:

  • Meu avo completou 80 anos;
  • Minha avo completou 80 anos;

Claramente você percebe e diferencia quando se trata de avô ou avó graças às concordâncias de gênero

mas… como diferenciar o “E” do “É”?

Alguém, no passado, simplesmente adicionou um H ao final para, visualmente, destacar que ali havia acentuação. A ideia pegou e se disseminou, tornando-se padrão. Assim, na impossibilidade de usar o “É“, convencionou-se o uso do “EH“. Exemplo:

  • Mas e vc? (Mas e você?);
  • Mas eh vc? (Mas é você?);

E assim o H passou a ser usado também em outras terminações aonde era importante destacar uma acentuação (avoh, eh, estah, tah). PROBLEMA RESOLVIDO!

Os anos se passaram e a internet evoluiu juntamente com todas as tecnologias que a suportam, possibilitando o uso das várias formas de escritas, e claro, a acentuação gráfica. Aqui no BR, por exemplo, é comum que os teclados já sejam vendidos com a tecla “ç“.

A evolução é tão notória que se antes era demorado e caro enviar um simples “oi tbd” para um amigo, hoje você pode enviar um livro inteiro para qualquer contato seu, em qualquer lugar do planeta em que ele esteja conectado e em questão de segundos. O que é comum hoje, era algo impossível há apenas alguns anos atrás.

 

Então por qual razão ainda usamos o internetês até hoje?

Bem, posso dizer que, posteriormente, já na época de ICQ e MIRC, mesmo quando já era possível acentuar, muitos simplesmente continuaram por força de hábito. Outros receberam computadores em casa e aprendiam a digitar na prática, não possuíam habilidade e, portanto, não possuíam velocidade e, nesse contexto, o internetês dá uma baita ajuda! Também faltavam a alguns, o conhecimento técnico básico sobre como configurar o teclado corretamente no seu idioma. De toda forma, acessar a internet era novidade para muita gente e, essa gente toda chegou e se deparou com essa forma de escrita que já existia, já estava lá. O que fazer? Brigar com todo mundo para digitarem respeitando as normas gramaticais ou simplesmente abraçar o jogo como ele é jogado e adaptar-se ao meio?

Outro fator que devemos lembrar é que, antes do whatsapp, antes dos smartphones, haviam telefones comuns, com teclados NUMÉRICOS. E cada número vinha com três letrinhas. Para enviar mensagem de texto para outra pessoa, você podia levar minutos, apertando várias vezes cada tecla numérica. Aquilo não era legal e seria muito pior se não pudéssemos abreviar as palavras!

É preciso dizer que a internet no final dos anos 90 e no começo dos anos 2000, ainda era um ambiente desconfortável para os internautas. As conexões discadas eram ruins e podiam cair a qualquer momento, com grande chance de demorar horas para se conseguir uma nova conexão. Também era caro se conectar, você pagava um provedor e ainda pagava pela chamada telefônica, que cobrava por tempo de chamada. Alguns podiam conectar por várias horas, outros só podiam tarde da noite ou de madrugada, quando as empresas de telefonia só cobravam uma taxa por cada chamada, e não por duração. Então, conversar nos chats ainda requeria velocidade e objetividade, assim, digitar corretamente exigia muito mais tempo. O internetês começou a ganhar novos termos, novas formas, uma nova dinâmica conforme mais pessoas usavam a internet. Logo a frase “boa noite, tudo bem com você?” virava um “tdb c vc?” e ao invés de “oi, vamos teclar?”, usava-se tão somente um “vms tc?”.

O LOL já é um quarentão!

Como você já sabe, hoje temos espaço de armazenamento abundante e velocidades de conexão cada vez maiores. Os sistemas operacionais suportam praticamente todos os idiomas e formas de escritas do planeta e os teclados vêm preparados e regionalizados conforme a necessidade de cada país. Então, seria natural que o internetês, que surgiu em meio às limitações iniciais, já inexistentes no mundo atual, simplesmente fosse desaparecendo conforme tais limitações deixassem de existir, até não fazer mais o menor sentido de seu uso nos dias de hoje.

Ocorre que, apesar de tudo, o internetês e suas abreviações não desapareceram, ao contrário, popularizaram-se mesmo entre os que já nasceram digitais e sem sequer testemunhar quaisquer das limitações aqui expostas, acreditando que é uma forma de comunicação particular de sua geração. Por outro lado, as pessoas de maior idade, que sequer tinham contato com o mundo tecnológico e que pouco ou nada sabem desta história, hoje estão nas redes sociais e aplicativos de conversas  e, passado o choque inicial, adotam o internetês para se comunicarem, causando a percepção de que caíram na “onda jovem”. Mas meu amigo, sinto-lhe informar que essa onda já perdeu a juventude faz tempo e já caminha para meio século.


Aonde houver um ser humano digitando errado, haverá um feroz (e chato) ditador da gramática, prezando pela imediata correção e tratando o autor do erro como um delinquente. O que esses ferozes soldados precisam entender é que sim, existem erros de português, mas…

o internetês não é um erro de português!

Por mais que essa forma de comunicação aqui da internet gere antipatia por parte daqueles que prezam pelo uso correto do idioma, o internetês já passou a figurar como uma forma de comunicação, prática, rápida, num mundo que exige cada vez mais velocidade. Não se trata de uso equivocado e errôneo do idioma, mas sim do uso adaptado ao meio eletrônico e isso independe de idiomas, o internetês ocorre em escala global e de forma dinâmica e mutável, de forma que a cada dia as pessoas criam novas expressões, abreviações objetivando atender suas novas necessidades e especificidades, popularizando ainda mais, à medida em que novos recursos de mídia são lançados na grande rede, tais como memes e hashtags.

Então, o que nasceu de uma necessidade, permaneceu e evoluiu pela sua essência primordial de tornar as comunicações mais rápidas no meio em que são utilizados. O problema é levar esse hábito, essa linguagem, para o mundo não virtual, como por exemplo, para sua redação escolar, ou, como já vi, para o seu currículo. Aí não pode 🙂

Mas uma coisa é certa! O “eh” que o meu amigo de Facebook criticou ferozmente, eh inocente!

[]s a tds (abraços a todos)

 


Fontes:

A estonteante evolução dos discos rígidos
Alex Cocilova, PCWorld EUA, 2013
http://pcworld.com.br/noticias/2013/09/13/a-estonteante-evolucao-dos-discos-rigidos/

Giganews’ Usenet History
https://www.giganews.com/usenet-history

Curlie.org
https://curlie.org/Computers/Usenet

Bruce Jones, archiver (1997). USENET History mailing list archive covering 1990–1997. communication.ucsd.edu